11.6.13

Batuta concorrida

João Luiz Sampaio - O Estado de S.Paulo

Mariss Jansons só aceita reger quatro orquestras em todo o mundo - e vem ao Brasil no dia 23 com a melhor delas

Foi durante uma récita de La Bohème, em Oslo, em 1997. A ópera já se encaminhava para o fim quando o maestro caiu do pódio. Foi acudido pelos músicos à sua volta, estupefatos: no chão, o rosto contorcido de dor por conta de um enfarte, ele continuava a reger. No tempo certo. A história, na narrativa de quem a vivenciou, virou lenda - e testemunho do talento do letão Maris Jansons. Há outros, mais concretos. Simon Rattle, diretor da toda poderosa Filarmônica de Berlim, se refere a ele como o maior maestro da atualidade. E, em 2009, quando a revista Gramophone fez uma enquete para eleger as maiores orquestras do mundo, ele foi o único a ter dois dos grupos que comanda entre as dez mais. E é com a primeira colocada, a Orquestra Real do Concertgebouw de Amsterdã, que ele desembarca no dia 23 no Brasil, para concertos em São Paulo e no Rio.

As apresentações fazem parte dos festejos pelos 125 anos do grupo, que resolveu comemorar o aniversário com concertos em todos os continentes. A primeira apresentação em São Paulo (pela Sociedade de Cultura Artística) será no dia 23, ao ar livre e com entrada franca, no Auditório Ibirapuera - e será transmitida ao vivo em um telão na Museumplein de Amsterdã. No programa, obras de Enescu, Prokofiev, Stravinski, Bizet e Villa-Lobos. Já na Sala São Paulo, nos dias 24 e 25, as obras serão outras: a Rapsódia Sobre Um Tema de Paganini, de Rachmaninov, e a Sinfonia n.º 5 de Tchaikovski, no primeiro dia, e, no segundo, além da rapsódia, a Sinfonia n.º 1 de Mahler.

"Esta tem sido uma jornada especial", diz Jansons, lembrando que se trata da primeira vez que uma orquestra visita todos os continentes em uma só temporada, e comentando a recente viagem do grupo à Ásia, onde interpretaram todas as sinfonias de Beethoven. "Desde o início, o jubileu da orquestra foi compreendido como uma maneira de disseminar nossa cultura, nossa música, nossa maneira de trabalho. Você pode imaginar as proporções do planejamento que isso exigiu, mas nossa percepção é de que o objetivo tem sido atingido."

Sobre o repertório, ele reconhece que a atenção especial recai sobre a sinfonia de Mahler. "É natural que seja assim. Há uma relação entre a orquestra e sua música, e ela é antiga. Basta lembrar que Wilhelm Mengelberg, um dos primeiros diretores do grupo, foi também um dos primeiros a incentivar a execução de suas composições." Isso, claro, no início do século 20 - e os músicos daquela época já não estão mais na orquestra. Como, então, manter viva essa tradição. "Sou o primeiro a dizer que isso poderia soar exagerado, quer dizer, como um grupo que tocou Mahler no início do século poderia manter uma ligação em primeira mão com ele tanto tempo depois? Mas este é um dos aspectos que mais chamam a atenção no trabalho deles. Há um fluxo interessante da tradição, que se explica pelo modo como os jovens instrumentistas estão sempre em contato com a antiga geração. E a troca de experiências dá à sonoridade deles uma característica sempre especial."

Pátrias. Janson fala por telefone com o Estado, direto de seu apartamento em São Petersburgo. A relação com a cidade, em sua trajetória, nem sempre foi pacífica - mas, tanto tempo depois, ele ainda a chama de casa. Janson nasceu em Riga, em 1943. Seu pai era maestro, a mãe, soprano. Da ocupação nazista, ele saberia apenas por histórias contadas anos mais tarde. No que diz respeito à memória de infância, a primeira lembrança é de acompanhar o pai constantemente em ensaios na Ópera de Riga. "Ainda menino, eu decorei muitas óperas e balés, que reproduzia em casa, com um teatrinho de brinquedo. Meus pais diziam que, com 3 anos, eu já fingia estar regendo uma orquestra. Enfim, acho que de alguma forma, sempre estive muito em contato com o meu próprio talento musical e, sendo assim, seguir uma carreira na música nunca foi algo que gerou questionamentos dentro de mim."

Aos 13 anos, ele e a família se mudaram para São Petersburgo, na época Leningrado. Seu pai foi escolhido como assistente de Yevgueni Mravinski, diretor da filarmônica local. O contato com ele, assim como a experiência musical oferecida pela cidade, ainda hoje desperta boas lembranças em Jansons. "Este foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. A língua era diferente, o país, tudo era novo", conta. Havia também a necessidade de encontrar o próprio espaço, longe da sombra e da carreira do pai. "Mas, no momento em que o trauma inicial se dissipou, comecei a me dar conta do altíssimo nível da educação musical que eu estava recebendo, da importância que o contato com aqueles músicos fantásticos teria na minha carreira."

Jansons logo se transformaria em protegido de Mravinksi - e relatos dão conta de que foi preterido na corrida para substituí-lo por conta de uma intervenção do Partido Comunista, que indicou o nome de Yuri Temirkanov para o posto. Sobre isso, ele não fala. E, a respeito da vida cultural na Rússia de hoje, afirma apenas que tem passado por muitas mudanças - o apoio estatal já não é tão grande, o que leva à procura de alternativas na briga por dinheiro e financiamento; ainda assim, a qualidade da música feita no país é ainda altíssima. "É o único cuidado a se tomar, não permitir que a qualidade sofra. Jamais."

Coração. Fora da União Soviética, Jansons passou pela Filarmônica de Oslo, nos anos 80, e pelas sinfônicas de Pittsburgh e Londres, na década seguinte. Hoje, comanda a orquestra do Concertgebouw (está no posto desde 2002) e a Sinfônica da Rádio da Baviera, a sexta colocada no ranking da Gramophone, que ele dirige desde 2003. Além delas, rege apenas as filarmônicas de Berlim e Viena (por sinal, a segunda e a terceira colocadas da lista). Convites não faltam - e chegam de todo o mundo. Mas Jansons prefere se dedicar a um pequeno grupo de orquestras. E, na decisão, pesa a saúde debilitada. Dez anos antes do episódio em Oslo, ele já sofrera um enfarte durante um concerto em Pittsburgh - e, desde então, já teve outros dois episódios. Aposentar-se, no entanto, apesar da insistência dos médicos, não é uma opção. "Mas não posso reclamar. Ter a oportunidade de trabalhar com essas quatro orquestras já é algo fascinante. Estão entre as melhores do mundo e possuem padrões artísticos altíssimos."

No início de maio, o Estado acompanhou em Amsterdã uma apresentação da orquestra do Concertgebouw, que interpretava a ópera O Navio Fantasma, de Wagner, sob regência do jovem maestro Andris Nelsons, que acaba de ser apontado para dirigir a Sinfônica de Boston. A sonoridade da orquestra, na ocasião, chamou atenção pela clareza, pela transparência - além do equilíbrio entre os naipes. "Acho que é esta a qualidade principal do som deles", diz Jansons. "Mas eu acrescentaria a capacidade de sentir de modo diferente cada estilo, a música de cada período. E eles fazem isso com espírito próprio."

E é possível, em um mundo como o de hoje, em que orquestras têm em seus quadros músicos de diferentes nacionalidades, manter uma identidade? Ou as orquestras tendem a soar cada vez mais parecidas? "Não se forem boas", diz o maestro, sem hesitar. "O que faz de uma orquestra grande é justamente a sua individualidade. Amsterdã, Berlim, Viena, Munique: cada uma soa diferente, de sua maneira, e para isso não precisaram se fechar ao mundo. E parte do meu prazer em trabalhar apenas com elas é justamente sentir essa diferença e as possibilidades que ela nos oferece." E qual o papel do maestro nesse processo? "Ajudar a manter a tradição e, ao mesmo tempo, trazer algo de novo. Hoje em dia, os titulares das orquestras não trabalham tanto mais com elas. Eu evito isso, para que uma relação mais próxima e especial possa se desenvolver."

ESTADO.COM.BR - Cultura/Cultura
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,batuta-concorrida-,1041084,0.htm

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