23.7.11

O frevo não convida, arrasta

Paulo Gonçalves http://anovademocracia.com.br/39/26b.jpg
O povo pernambucano gosta de dizer que tem "uma música e uma dança que nenhuma terra tem". E é verdade. Criada pelo próprio povo, essa música e dança completou 100 anos de registro em fevereiro de 2007. A palavra frevo foi publicada pela primeira vez no dia 9 de fevereiro de 1907, no então Jornal Pequeno. A nota citava um ensaio do clube Empalhadores do Feitosa, localizado no bairro recifense do Hipódromo, que tinha como uma das músicas do repertório O Frevo. Mas a palavra é uma expressão popular mais antiga e vem de ferver e, por corruptela, frever, sinônimo de festa animada, quente.

Todavia, se o primeiro registro jornalístico completa 100 anos, as origens do ritmo são bem mais antigas, como todo carnavalesco pernambucano está "cansado de saber", como diz o trabalhador Agnaldo Santos. De chapéu panamá e camisa azul com listas brancas, ele chega pontualmente às 19h de uma sexta-feira, à sede do Bloco Carnavalesco Banhistas do Pina, cujo símbolo é uma jangada e as cores oficiais são o azul e o branco. Vem cansado do trabalho de gari, mas com um sorriso aberto no rosto magro.


— Passo o dia varrendo as ruas dos bacanas de Boa Viagem, embaixo do sol quente, mas meus pensamentos ficam leves quando penso no meu Bloco querido — afirma.

Enquanto afina o instrumento para mais um ensaio, Nado, como é conhecido, fala com carinho da sua trajetória carnavalesca.

— Comecei menino, trazido pelo meu pai. O Bloco foi fundado em 1932 e desde o começo tem sempre alguém da minha família fazendo parte do Carnaval. Essa tradição não vai morrer porque meus dois filhos já estão por aqui também.

Nado toca violão, cavaquinho e banjo, instrumentos que compõem a orquestra de paus e cordas dos blocos líricos, surgidos a partir de 1915, das reuniões familiares e como uma extensão dos presépios e ranchos de reis, tocando frevo-canção e marcha de bloco. Essa origem, segundo o pesquisador Valdemar de Oliveira, se liga aos admiradores das serenatas que também iam às ruas nos dias de carnaval. Os blocos são influenciados — inclusive com sua dança que em nada lembra o passo do frevo — pelos pastoris. Além dos Banhistas do Pina (que também já recebeu os nomes de Amadores, Jangadeiros e Veranistas), outros blocos surgidos na época e que ainda desfilam no carnaval recifense são o Apois fum!, Bloco das Flores, Batutas da Boa Vista (1920), Madeiras do Rosarinho e Inocentes do Rosarinho (ambos em 1926) e Batutas de São José (1932).

http://anovademocracia.com.br/39/26a.jpg Outra tradição preservada no carnaval de Pernambuco são os clubes de frevo, que, ao contrário dos blocos, executam "frevo rasgado", ou frevo-de-rua, com instrumentos de sopro, a exemplo do Clube das Pás.

Na tarde de um sábado calorento do mês de outubro, o motorista de táxi Rafael Silveira foi um dos primeiros a chegar à sede do clube, no bairro do Campo Grande, acompanhado da esposa, a costureira Leda Maria, que há vários meses dedica-se à confecção de fantasias.

— Nós fazemos o possível para aproveitar o material usado no ano anterior, mas tem sempre que comprar peças novas. Cada um contribui como pode e se esforça para fazer o Clube ficar bonito.

E boniteza — além de história — é o que não falta "nas Pás", como o povo chama o clube fundado em 1887. Dizem que naquele ano, um navio inglês que aportara para abastecer-se de carvão estava fundeado no porto do Recife. Como era dia de carnaval e com a agitação política da época, faltou mão-de-obra para abastecer o barco. A agência responsável pela carga "pagou dobrado" a um grupo de carvoeiros que fizeram o abastecimento, sem deixar de brincar o carnaval.

Depois de ter recebido os seus salários pela prestação do serviço, o grupo de trabalhadores seguiu euforicamente para pular atrás das troças. Dado a euforia da festa e o robusto salário recebido resolveram fundar um novo bloco carnavalesco, e, em homenagem aos seus instrumentos de trabalho o denominaram de Bloco das Pás de Carvão, que fez o seu primeiro desfile no carnaval de 1888 e hoje se chama Bloco das Pás Douradas.

Ritmo e "passo"
Se os clubes e blocos têm tipos de frevo e origens de classe bem definidas e registradas na memória do povo, não se pode provar, contudo, quem nasceu primeiro, se o frevo ou o passo — que é a dança correspondente ao estilo musical.

O historiador Valdemar de Oliveira afirma no livro Frevo, Capoeira e Passo que "a dança nasceu de um choque entre a capoeira e as marchas militares". Ele registra que durante o século XIX as cerimônias de troca de guarda nos quartéis exigiam que as bandas militares desfilassem pelas ruas, várias vezes por dia. Esse cortejo passou a ser acompanhado pelos praticantes da capoeira — geralmente negros, ex-escravos e pessoas egressas das camadas proletárias da população do Recife — que no trajeto executavam passos de dança improvisada. Dessa combinação, teria surgido o passo.

Uma dessas bandas militares chamava-se "O Quarto", por ser do Quarto Batalhão de Artilharia, a outra "A Espanha", do Corpo da Guarda Nacional, assim chamada por ter como mestre um músico espanhol. Os capoeiras escolhiam uma banda marcial como a de sua preferência, e considerava adversário quem não fizesse parte do mesmo grupo. E então eram distribuídas pernadas, golpes com pau, espetadas com faca e punhal entre os partidários das bandas adversárias. Até que em 1856 o então governo da Província de Pernambuco proibiu o desfile dos capoeiras— na mesma época em que as limas-de-cheiro, dos entrudos, e os capoeiras também eram alvo de proibição no Rio de Janeiro.

A diferença, segundo o historiador Ruy Duarte no livro História Social do Frevo, é que enquanto as ordens foram obedecidas no Rio, que adotou um carnaval de estilo europeu, no Recife, que respirava rebeldia e agitação, a proibição foi driblada com a fundação de clubes carnavalescos:

— A polícia na verdade estava perseguindo capoeiras que matavam os portugueses invasores. Então os clubes se fundavam sob inspiração clandestina de nomes e símbolos — daí a denominação de clubes carnavalescos com categorias profissionais, Lenhadores, Vassourinhas, Caiadores, dentre outros.
Maestro Formiga

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Maestro Formiga
Desde então, para animar a folia, seja nas ruas ou nos salões, músicos como o maestro Ademir Araújo são figuras centrais da folia e recebem, por isso, o carinho do povo pernambucano. Conhecido por Formiga, o maestro iniciou sua carreira em 1961. Compositor, arranjador, regente e professor de música, ele já trabalhou em diversas bandas, como a Municipal, a Sinfônica da Cidade do Recife, Banda Sinfônica Juvenil Pernambucana e coordenou o Curso de Capacitação de Instrumentistas de Bandas.

Atualmente é diretor musical, arranjador e compositor da Orquestra Popular do Recife, fundada por Ariano Suassuna em 1975. Ele também atua como diretor da Federação das Bandas de Música do Estado e como regente da Banda Amigos da Cidade do Recife, além de ser membro da Academia Pernambucana de Música. Apaixonado pelo frevo, Ademir diz que o ritmo é o elemento impulsionador da Orquestra Popular, associado aos outros ritmos do povo — maracatu, ciranda, caboclinho, bumba-meu-boi, coco-de-roda, dentre outros.

Dedicando-se à pesquisa e transcrição de gêneros populares, a Orquestra Popular é conhecida também pela precisão, afinação e potência de seus metais e já se apresentou em todo o Nordeste, além de países como Alemanha, Bélgica e Cuba, em concertos solo, acompanhando o grande cantor de frevos Claudionor Germano ou o Balé Popular do Recife, além de ser convidada com frequência a se apresentar com vários artistas.

— Todo o meu tempo é dedicado à música. Mas além da Orquestra Popular faço arranjos, componho, dou aulas de música para alunos dos bairros populares e também dou aula de reciclagens em bandas no interior. Tudo por conta própria, é bom que se diga — diz o maestro.
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A voz do frevo

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Claudionor Germano
Claudionor Germano é outro artista querido do povo pernambucano, cuja voz é para muita gente uma espécie de símbolo do frevo-canção. Ele conta que começou a sua carreira artística em 1947 na Rádio Clube de Pernambuco como crooner do grupo Ases do Ritmo.

— Em 1948 fomos escolhidos como o melhor grupo vocal do ano. Depois eu decidi seguir carreira individual e logo fui contratado pela Rádio Tamandaré. Posteriormente atuei na Rádio Jornal do Comércio e, em 1951, ainda com os Ases do Ritmo gravei o samba Eu não posso viver sem mulher, de Victor Simom e David Raw e a marcha Vai ser pra mim, de José Roy, Vladimir de Melo e Orlando Monello.

Foi em 1953 que o Claudionor gravou seu primeiro disco na gravadora Copacabana interpretando o frevo canção História de pierrô, de Genival Macedo e Hilário Marcelino. Com a inauguração da emissora de televisão da Rádio Jornal do Comércio no Recife, onde passou a atuar, conseguiu projeção nacional mesmo sem deixar o Recife. Em 1955 participou da primeira gravação da gravadora pernambucana Mocambo interpretando o frevo canção Boneca, de Aldemar Paiva e José Meneses. Em 1957 lançou na mesma gravadora o Frevo nº 3, de Antônio Maria.
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Nelson Ferreira
Logo em seguida gravou outro disco cantando pela primeira vez nos dois lados, pois até então dividira o disco com outros intérpretes. Cantou na ocasião o frevo canção Super-campeão, de Nelson Ferreira e a marcha exaltação O mais querido, de Capiba. Em 1959 lançou dois LPs, o primeiro foi O que eu fiz...e você gostouCarnaval cantado de Nelson Ferreira, com músicas do maestro Nelson Ferreira. O segundo foi Capiba — 25 anos de frevo, com composições de Capiba, que bateu recordes de vendagem e é procurado nas lojas até hoje, quando chega o carnaval.

Claudionor gosta de lembrar que em 1961 foi escolhido o melhor cantor do Rádio e da Televisão de Recife, fato que se repetiria por quatro anos seguidos.

— Muita gente que associa a minha voz ao frevo, em virtude do estrondoso sucesso que fizeram os discos com músicas de Capiba. Mas eu também fiz sucesso com outros ritmos — comenta.

Ainda naquele ano lançou o LP Sambas de Capiba, onde se destacou A mesma rosa amarela, parceria de Capiba e Carlos Pena Filho que alcançou enorme sucesso. Em 1962 gravou na Mocambo o samba Manhã da tecelã, de Capiba e Pena Filho. No mesmo ano gravou a marcha hino Brasil, campeão do mundo, de Nelson Ferreira e Aldemar Paiva e o cha cha cha Garrincha cha, de Rutinaldo, em homenagem ao jogador Garrincha. As duas gravações eram alusivas ao bi-campeonato mundial de futebol conquistado pelo Brasil na ocasião. Durante muitos anos ele cantou à frente da orquestra de Nelson Ferreira, outro grande compositor do ritmo centenário.
Quem é de fato
bom pernambucano
espera um ano
para entrar na brincadeira
esquece tudo
quando cai no frevo
e no melhor da festa
chega a quarta-feira"
(Luiz Bandeira - frevo É de fazer chorar, de 1957)
Em outro texto fundamental sobre a história do frevo, Valdemar de Oliveira escreveu que "o frevo não convida, arrrasta", traduzindo a força da onda humana que se forma e se descola ao ritmo dos instrumentos de metais e percussão. Um ritmo que não apenas convida ao balanço e ao gingado, mas que também exige competência musical, como gosta de lembrar o maestro Formiga.
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Frevo, de Pierre Verger, Recife, 1947
Instrumentistas, compositores, arranjadores e intérpretes são os responsáveis pelo vigor e fluência deste gênero pernambucano por excelência. Músicos do povo como Juvenal Américo Brasil, Matias da Rocha e o capitão Zuzinha são nomes lendários na história do frevo. Levino Ferreira é outro músico fundamental, considerado por muitos como o "rei do frevo", opinião compartilhada por compositores como Capiba, Duda, Edson Rodrigues e Dimas Sedícias. Além dele, Nelson Ferreira e Zumba são responsáveis por páginas extraordinariamente belas do carnaval de Pernambuco.

O recifense Antonio Sapateiro (1892/1940), ou Antonio João da Silva, sapateiro de profisssão, que tocou trompete e bombardino na banda da Polícia Militar de Pernambuco, Raul Moraes (1891-1937), que ficou conhecido como o "príncipe das marchas-de-bloco", também se destacam pelas riqueza melódica e pelo conteúdo poético de suas letras, insuperáveis até hoje. O irmão de Raul, Edgard Moraes (1904-1974) foi violonista, cavaquinista, autor de importantes composições, como A dor de uma saudade, Valores do passado e Carnavais de outrora.

Felinho, ou Félix Lins de Albuquerque tocava sax, trombone e clarinete, e foi o criador de famosas variações do frevo Vassourinhas.

Antonio Maria — o poeta, jornalista e cronista Antonio Maria Araújo de Morais — compôs Recife, Frevo n° 2 do Recife e Frevo n° 3.

Grandes mestres do ritmo registram obras e performances instrumentais, que também não podem passar despercebidas: Getúlio Cavalcanti, Clóvis Pereira, Guedes Peixoto, Edson Rodrigues, o maestro Duda (José Ursicino da Silva), Carlos Fernando, sendo que Capiba (1904-1997), ou Lourenço da Fonseca Barbosa, pianista e arranjador, é nome incontornável em criação musical, tendo deixado obra fundamental no cancioneiro brasileiro, não apenas de frevo.

Mas a maioria dos músicos pernambucanos, dedicados ao ritmo, queixam-se da "enxurrada de música alienígena" e do pouco espaço dedicado ao frevo nas rádios locais, processo que se acentuou a partir do golpe contra-revolucionário de 1964.

Gravado desde o final dos anos 20, no Rio de Janeiro, por famosos cantores do rádio, para consumo dos pernambucanos, o ritmo passou a ter seus discos produzidos no Recife, a partir de 1955, quando a Fábrica de Discos Rozenblit ganhou estúdio e prensa. Naquela época os discos de carnaval saíam da fábrica em setembro. Em fevereiro, portanto, já estavam na boca e no pé dos foliões.

Desde a década de 70, contudo, as emissoras de rádios passaram a só tocar frevo no período carnavalesco. Os discos continuam sendo lançados, sem divulgação, e sem execução no rádio e TV, portanto, não chegam ao povo. Por esse motivo o ritmo foi perdendo espaço e o sucesso construído pelos meios de divulgação da burguesia de meio-de-ano acaba sendo o sucesso do carnaval.

Outra dificuldade, como lembra o maestro Formiga, é que os músicos do povo não têm acesso fácil ao ritmo, que exige conhecimentos formais, de orquestração, arranjo, e livros com partituras que são praticamente inexistentes no mercado. Por isso ele dedica-se também ao trabalho de escrever, fotocopiar e distribuir partituras de frevos para as dezenas de músicos que o procuram durante o ano inteiro.

Luta de classe

No seu livro Máscaras do Tempo, a historiadora Rita de Cássia Araújo afirma que a explosão do frevo em Pernambuco está totalmente ligada à luta de classes ocorrida no decorrer do século XIX. Ela pesquisou os jornais publicados na época da dominação imperial e descobriu que até a primeira década do século XX o carnaval era brincado de duas maneiras bem distintas, pelo povo e pela burguesia da época — que jamais brincava nas ruas; imitavam os festejos carnavalescos europeus, realizados em clubes fechados e tinham como base as festas de máscaras.

Há registros de que este era o carnaval oficial já no ano de 1845, quando os trabalhadores escravizados e o povo pobre não brincavam em fevereiro.

Com o crescimento das lutas do povo, as manifestações populares que ocorriam durante o ano todo — os desfiles dos "capoeiras" acompanhando as bandas militares — ganharam contorno carnavalesco.

Nessa época, houve uma explosão de clubes populares (Vassourinhas e Clube das Pás entre eles), e o Carnaval migrou definitivamente dos salões perfumados para as ruas. Hoje, superadas as antigas brigas entre bandas (embora ainda persistam nítidas divisões de classe no carnaval de rua, como de resto em toda as manifestações da cultura), o carnaval de Pernambuco é um dos mais democráticos do país. Além do frevo, o povo pernambucano também faz seu carnaval ao som do maracatu, ciranda, côco, caboclinhos e bumba-meu-boi. É nessa hora que as ruas enfeitadas e cheias de cores do Recife se transformam em grandes corredores para a passagem de blocos, clubes, troças e grupos de maracatu, tal como acontecia com os capoeiras que seguiam as bandas militares, desafiando as regras do poderio colonial.
A Nova Democracia
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