30.4.14

Dia do Jazz: músicos e apreciadores falam sobre o gênero

  • Ag. A TARDE

    Letieres, Joatan, Ivan, Joander e Vandex no Palacete

O Dia Internacional do Jazz é comemorado desde 2012 no dia 30 de abril, a partir de uma iniciativa do pianista e embaixador da boa vontade da Unesco, Herbie Hancock.

Por conta da data, a reportagem reuniu músicos e apreciadores do estilo no Palacete das Artes (Graça), para um debate sobre o cenário jazzístico em Salvador, suas características e conflitos.

Os músicos que participaram foram Letieres Leite, Joatan Nascimento, Ivan Huol, Joander Cruz, Vandex, Sergio Franco e Laurent Rivemales, todos com expressiva participação no cenário jazzístico local.
Expressão cultural e filosofia

De acordo com o trompetista e professor na Escola de Música da Ufba, Joatan Nascimento, o jazz, antes de tudo, deve ser visto como um componente cultural, resultante de um processo histórico de convergência de culturas. 

Para ele, o jazz é a manifestação de uma expressão. "O jazz é uma filosofia", explica.

Mas para os músicos brasileiros, sobretudo baianos, é muito difícil assimilar tais valores culturais do jazz norte-americano, por serem culturas diferentes.

"Nós vivemos numa cultura de massa em Salvador muito forte e dominadora, ao ponto de nós, músicos que gostamos de tocar jazz, nos transformarmos em guerreiros defensores de uma prática, que se não tiver quem faça, ela desaparece por completo", afirma Joatan.

Letieres acredita que há em Salvador uma "jazzfobia". "É o fato de os músicos não quererem chegar perto do jazz por considerar uma coisa muito difícil", explica.

Joander Cruz,  jovem trompetista de Jequié, vindo recentemente da Alemanha, fala de sua experiência com a chamada jazzfobia. "Da minha geração, eu realmente não acho tantos colegas para poder tocar comigo músicas dos anos 60", conta.

Para o colaborador do blog SóJazz (Sociedade Para Apreciação do Jazz), Sergio Franco, a cena de jazz em Salvador conta com músicos muito bons.  Mas é preciso que haja casas especializadas que os acolham e que o público possa apreciar.

Por outro lado, Letieres afirma que "a música instrumental e o jazz em Salvador têm o tamanho certo para o que representam no mundo". Ele lembra que na maioria das grandes cidades do mundo, a cena jazzística é sempre menor que a de estilos mais populares.

Para o músico Vandex, vindo da cena do rock, as possibilidade de mercado para o jazz são infinitas. Através da pioneira VandexTV, ele apresenta o programa Jazz em Plutão. "O jazz é muito afastado, às vezes, da linguagem popular por ter uma dimensão musical muito sofisticada e que não tem uma escuta apropriada", conta.

Outro projeto que difunde o jazz é  o recém-criado  Jazz Na Avenida, que tem como responsável o músico Laurent Rivemales.

"Seria bom lembrar que o jazz nasceu na farra, nas ruas da New Orleans. E é esse espírito que o Jazz na Avenida quer passar", explica Laurent.

De acordo com Ivan Huol, baterista das bandas Base e Garagem e um dos responsáveis pela JAM no MAM, o jazz é uma música que exige conhecimento para melhor apreciação.

Para o músico, é preciso educar os ouvidos e desenvolver uma capacidade de apreciar composições espontâneas, como acontece no jazz. Joatan Nascimento acrescenta: "Você quer pessoas que ouçam e apreciam jazz... vamos educá-las!".

Swing, improviso e conflitos

As origens da palavra jazz são incertas. Uma das hipóteses é sobre a conotação sexual da palavra, por aproximação à palavra dizzy (fricção), e nesse ambiente nasceu uma das essências fundamentais do jazz: o swing. Ele não se escreve em partitura. É muito mais um estado rítmico que dá o balanço à canção, mas sem perder a precisão e o foco da música.

"Toda música tem swing", afirma Joatan. Mas o maestro, arranjador e saxofonista Letieres Leite, líder da Orkestra Rumpilezz, aponta o paradoxo do swing na música: o fato de os jazzistas serem vistos pelos compositores de música erudita como se essa música não fosse elaborada, sem uma ordem. "Como eles não conseguem explicar o swing do jazz, falam que é a cada dia de um jeito... não! Existe rigor, existe estrutura", defende Letieres.

Ivan Huol atenta para o chamado transe dentro do jazz. "A música como linguagem é capaz de aproximar o homem com o invisível, com o ser superior, com o divino". E esse transe a gente percebe no jazz, que é quando o cantor tem a liberdade de criar. "Jazz é um espírito", afirma Huol.

O gênero na  Bahia

Letieres lembra dos tempos iniciais do jazz em Salvador. O músico conta que as grandes formações das big bands eram comuns nas casas noturnas e clubes da cidade. "Era um fenômeno que acontecia no mundo inteiro", diz Letieres.

Bares como o Varandá, na região da Rua Chile, e o Vagão, no Rio Vermelho,  localizado na ladeira do Pau da Bandeira, frequentados por músicos e poetas,  foram importantes para a cena nos anos 1970.  "Tinha também o Icba, um ponto de confluência de música instrumental do mundo", conta Letieres.

Um grupo influente, no final da década de 70, foi o Camaleon Jazz. "Me lembro que tinham vários músicos sentados e nessa primeira fileira lembro de Fred Dantas e Mou Brasil, e eu também estava lá sentado. O nível que eles tocavam era impressionante", recorda Letieres.

Outros grupos, como o Sexteto do Beco, (Thomas Gruetz, Aderbal Duarte e banda) o  Garagem e o Raposa Velha,  (Mou Brasil, Carlinhos Marques, Fred Dantas e Zeca Freitas) que lançou o primeiro disco independente de música instrumental da Bahia além do Festival de Música Instrumental da Bahia,  foram fundamentais para a música instrumental no Estado. E nomes como os bateristas Lula Nascimento e Anunciação  marcaram toda uma geração de músicos.

Como forma de expressão, o jazz  pode se adaptar à maioria de tipo de música do mundo. "Existe um jazz indiano, um jazz japonês, eurojazz, jazz cubano, latin jazz. E na Bahia, artistas fazendo jazz a partir da informação da nossa cultura afrobaiana", diz Letieres. Assim seria o chamado jazz afrobaiano, praticado pela Rumpilezz.

História e evolução

O jazz surgiu da árvore musical do blues, das work songs (músicas de trabalho) de trabalhadores negros dos EUA, no início do século 20. Nas cidades de New Orleans, Chicago e New York, o jazz passou por diversas transformações ao longo dos anos.

Os  instrumentos musicais básicos do jazz são os metais, palhetas e baterias. O processo evolutivo do jazz originou diversos subgêneros. Na década de 1910 havia o Dixieland, nos anos 30 e 40 o Swing das big bands fez grande sucesso popular. Já o bebop, em 1940, surgiu como um estilo mais radical. O jazz latino nos anos 50 e 60 e o chamado fusion vieram em 1970 e 1980, com forte presença no jazz contemporâneo.

O jazz é um estilo de vida, mais que um estilo musical. "É difícil verbalizar, é uma coisa de cultura. Você precisa viver o jazz", afirma Joatan.

A  TARDE

http://www.atarde.com.br/

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