15.7.11

Heitor Branquinho e conexão instrumental


ROGER MARZOCHI - Agência Estado
Dizer bom dia já é música. Tem gente sorrindo que responde: "vá se catar". Tem gente que faz de conta que você não existe, ou talvez porque esteja em outro lugar; e tem gente triste, dá para ver pelos olhos, mas que gentilmente sorri: "bom dia". E tudo isso vira música quando alguém percebe como é interessante dizer uma coisa, sentir ainda outra, e expressar no corpo ainda outra. Os músicos fazem isso. Muitos deles. E Heitor Branquinho é da família.
O cantor mineiro, de 27 anos, que nasceu na cidade de Milton Nascimento e Wagner Tiso, disse "boa noite" ao chegar ao palco do primeiro andar do Café Paõn, na terça-feira. O lugar é pequeno, os artistas ficam no mesmo nível das mesas. Na plateia pouca gente. Ninguém gravando com celular nem jogando beijos. O moço é bonito. Melhor ter cuidado, porque a sua namorada estava no "cotovelo" do salão, com uma filmadora num tripé. Isso na cabeça dói.

De longe, ela se parecia um pouco, um pouco, com a cantora Beatriz Azevedo. Seria ela? Antropófaga, ela também bebe muito em Milton. E em tudo que Milton é. É não? Onde está o Celso Sim? Será que todo mundo é da família? A namorada de Branquinho disse não cantar, mas como reforçou seus amigos de mesa, ela encanta. Sorriso contido. Heitor é sossegado, mas é alto. E tem um violão. Isso na cabeça... E vai saber se, em outra mesa, não estariam seus outros irmãos do Pitanga em Pé de Amora. São cinco pessoas a mais! Ou 116? Eles se conhecem? No MySpace eles listam 116 influências para suas músicas. E, por acaso, a centésima cai em Gabriel Garcia Marquez, em "Cem Anos de Solidão". Sinissstro! (na gíria do Rio, por favor!)
O show vai começar. Ele e o percussionista Vinícius Fernandes também são irmãos de profissão; Humberto Branquinho é irmão de sangue e de som. Dá para saber porque Bituca gostou de ouvi-lo a primeira vez, em Três Pontas. E de gostar tanto ao ponto de participar da gravação de duas músicas do disco "um Branquinho e um violão" e levá-lo também para o disco "... e a gente sonhando". Ele é da família. Ser da família tem uma série de condições, que pode te levar para o palco para cantar com ele, ou para a plateia. Não há diferença. Quem está fora quer entrar, quem está dentro não quer sair.
E Heitor tem o tempo. Dá para tomar o pulso da sua música. E não é coisa de médico. É coisa de louco. Do repertório, três estarão no novo disco novo. "A quem se cala", música inédita sua com Miller Sol, batizará o trabalho, que será lançado no primeiro semestre do próximo ano; "Ruas Nulas", que compôs com seu irmão Hugo; e "Soleira", música apenas de Heitor. Esta última tão clara, cheia de saudade, como se faltasse um pouco o chão de Três Pontas nesses cinco anos que está em São Paulo. Tocou ainda "Desafinado", de Tom Jobim e Newton Mendonça; "Tarde", de Milton e Márcio Borges e "Trem das Cores", de Caetano Veloso. E conseguiu imprimir a sua marca, sua voz calma, suave, em sons feitos por quem a gente não esquece.
Tocou ainda "Um Refrão pra Recomeçar", música feita em parceria com Roberta Campos, que ficou muito forte. "Posso me identificar em muitas outras letras e músicas em que interpreto, mas quando interpreto o que eu mesmo escrevi, o sentido é mais real. Quando digo ''lilás pra deixar a casa mais viva'', uma outra pessoa capta isso de uma forma, mas eu sei o sentido real deste lilás, das coisas que vivo no momento. Sei de qual lilás estou cantando!", explicou por e-mail, referindo-se a esta canção.
De alguma forma inexplicável, quando ele canta esse amor, ele não está necessariamente se referindo ao seu romance pessoal, mas a um amor universal. É isso aí Roberta? Vocês são da família? É muito Dani Gurgel e Adriana Godoy. E Dani Black. Sacanagem, é tanta gente! Não dá para listar. E é muito Chico Pinheiro. É tão Ulisses Rocha! No disco "Só" é ele sozinho no violão. Mas com o tempo tão apurado, tão consciente, que as notas soam de tal forma que é impossível não sentir toda a profundidade da sua poesia. Assim é o grupo À Deriva, em "Suíte de um Náufrago". Quebra a gente ao meio. É muito Movimento Elefantes. E é muito Ilana Volcov. Só para ficar na constelação Milton Nascimento, ouvi-la cantar "Paixão e Fé" é o ápice do sagrado e do profano. É a fé no humano, miseravelmente humano. O seu disco "Bangüe" merece o trema, na contramão do acordo ortográfico! Tradição se constrói. Está em constante construção.
É muito Carlos Malta e Filó Machado. Saindo do Paõn, na mesma noite de terça-feira, o bar Ao Vivo Music apresentava Filó e o Septeto S.A. Além de Filó estavam no palco Débora Gurgel (piano), Carlos Alberto Alcântara (sax tenor), Daniel D''Alcântara (trompete e flugel Horn), Vitor Alcântara (sax tenor), Marinho Andreotti (contrabaixo), Josué dos Santos (sax alto) e Celso Almeida (bateria), com canja de Jean Philippe Cote (sax tenor). Quebradeira total. E muitos pontos de fusão. Logo Hugo Branquinho vai tocar junto. Vai não? Ah, ele só está começando na flauta transversal. E o pouco que sabe é tocado também com o coração. 

/Cultura
http://www.estadao.com.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário