22.9.13

Springsteen toca disco clássico inteiro

Jotabê Medeiros

“Vocês estão sentindo o astral?”, perguntou Bruce Springsteen para a plateia, enquanto a banda iniciava a marcação de Spirit in the Night. “Can you feel the spirit?”. Provavelmente até em Conceição do Mato Dentro o astral estava se fazendo sentir. Um show histórico do Boss no Rock in Rio esta noite.

Bruce Springsteen não escolheu cantar na abertura Sociedade Alternativa, de Raul Seixas, à toa: Raul foi um outsider no sentido mais amplo da palavra, um artista que fez seu caminho à margem da aceitação, com enorme capacidade para dizer não, de não se curvar a um impulso comercial. O simbolismo contido na música, que parecia destinada a fazer sentido apenas para um universo bicho-grilo, subitamente ganhou urgência e peso na voz e na banda de Springsteen.

Bruce tem voz de negão, tem porte de operário, tem gestos de operário, de tratorista ou estivador. Ele conserva esses símbolos de sua origem como algo precioso, a camisa enrolada até o braço musculoso. O suor é obrigatório, e quando a TV mostra sua mão suando em bicas enquanto sola a guitarra está evidenciado o esforço: Bruce crê no lema do homem que conquista com o esforço, a luta pessoal.

E, depois do suor, o prêmio. Ele anunciou a disposição de tocar inteiro seu disco Born in the USA, de 1984. E aí veio o disco na ordem: No Surrender, Cover Me, Bobby Jean, Darlington County, I’m Going Down. Aquele tipo de coisa que as pessoas terão orgulho de contar para os netos daqui a alguns anos.

No meio, coisas do novo disco, Wrecking Ball, como a faixa-título. Mas não bastava tocar, tinha de ter entrega. Ladeado por seus dois guitarristas, ele ficava à vontade para flanar no meio do público, beijando fãs, cantando segurado pelas pernas por outros fãs, jogando-se entre seus adoradores. Da primeira vez que fez isso, se fez acompanhar por seu saxofonista, Jake Clemons (sobrinho do saxofonista de sua banda que morreu, Clarence Clemons). Abraçou Jake como a um filho. O telão mostrava os fãs incrédulos, fascinados com a proximidade do ídolo.

Depois de cada corrida, ofegante, ele encarava as câmeras, e sentava-se nas caixas acústicas, e mostrava do que se trata o rock’n’roll. Seu guitarrista Niels Lofgren chegou a tocar (num solo arrepiante) com os dentes. Os três vocalistas de apoio, todos negros, são extraordinários. Mas a saúde do Boss é que sustenta tudo, e ninguém sai do script ali, é como um pacto eterno entre ele e sua E-Street Band.

A música de Springsteen respeita a história, é ética, desprovida de egoísmo, é clara e tocante. A vibração no Rock in Rio mostrava que nada do que veio antes e nada do que viria depois poderia ser mais relevante.

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