10.11.12

O rio que não passou

Julio Maria - O Estado de S.Paulo
 
Tinha Por que ele grava pouco? Por que evita o passado? Aos 70 anos, Paulinho da Viola começa a se entender melhor
Tinha ele 14 anos quando seu pai o chamou. Perguntou-lhe se queria estudar filosofia, medicina ou engenharia, já que filho bom era filho doutor. Mas a sua inspiração de ter um violão para se tornar sambista não o deixou em paz até que o menino decidiu queimar a língua do velho. Cinquenta e seis anos depois, a um dia de completar 70, Paulinho da Viola - já sem o pai craque no violão e ruim de previsão que só - é um rio de sensibilidades.
70 anos. 'Quando somos novos no acreditamos no que os mais velhos nos falam. Penso sobre isso hoje' - Divulgao
Divulgação
70 anos. 'Quando somos novos não acreditamos no que os mais velhos nos falam. Penso sobre isso hoje'
Não deve comemorar longamente a data para não ser apunhalado por um passado do qual prefere manter distância. Seu último álbum de carreira é de 2003, tem quase 10 anos, e um novo nem começou a ser desenhado. Quatro músicas inéditas estão prontas para um disco que deve sair "lá pelo segundo semestre do ano que vem".
Mas sua agenda reserva três datas de shows: a primeira dia 17 próximo no Parque Madureira, Rio; dia 28 no Carnegie Hall, em Londres, como parte do evento Voices From Latin America; e em 11 de dezembro, no Teatro Coliseo de Buenos Aires. Antes porém, Paulinho tira um dia para atender os jornalistas, espantar fantasmas e tentar entender questões que parecem estar sempre lá, no fundo da alma de um sambista.
Dá para continuar sendo um garoto quando se chega aos 70 anos? Quando vamos chegando a uma certa idade, e isso no meu caso não começou agora, olhamos para trás e começamos a rever as coisas. O chato é que nem sempre ficamos muito satisfeitos com aquilo que já vivemos, que já dissemos, que passamos. É por isso que não gosto de pensar sobre esse assunto. Quando somos novos não acreditamos no que os mais velhos nos falam, precisamos viver para saber como as coisas funcionam. Penso sobre isso hoje, perto de fazer 70 anos.
Isso, com aquilo que você sempre fala sobre não ser um nostálgico, parece fazer parte de um mecanismo de defesa acionado para evitar sofrimentos trazidos pela memória... É possível que seja. Na verdade, vou te dizer uma coisa: eu sei muito pouco sobre mim mesmo, acho que as pessoas sabem muito mais sobre mim do que eu mesmo. Olha, nós sempre, e você tem razão, nos defendemos dos sentimentos. E olha que eu amadureci muito para compreender que a gente não pode fazer tudo aquilo que imaginava que poderia. O tempo é isso, diz pra gente: "Olha, aqui não deu, aqui você reagiu mal, aqui reagiu melhor".
Mas você não é o Paulinho da Viola? De quem se ouve os maiores elogios que um sambista pode receber? Minhas falhas foram muitas, mais do que você imagina (risos). Vou falar só do meu trabalho: cometi coisas pretensiosas, equívocos, coisas que constatei depois. Por exemplo, às vezes eu lutava muito com relação à qualidade de som, contra a dificuldade que era para conseguir fazer chegar o som às pessoas em shows ao vivo. Tenho fotos tocando com apenas um microfone para a voz e o violão, imagina isso!
E você se arrepende de ter feito esses shows? Não, eu ia dizer que isso tudo criou em mim um comportamento de não querer ouvir o que eu gravo. Fiz muito disco de improviso, em cima da hora, de ir para dentro do estúdio e mudar a música no estúdio. Eu nunca ficava satisfeito, achava sempre que faltava algo. Sempre tive dificuldade de ouvir o que eu fazia. E se você faz as coisas às pressas, como era meu método, você comete erros à beça.
E a crítica ia elogiando você disco após disco. Ela estava errada? Não, ela acertava em algo (risos). As críticas sobre os discos mais elogiados que fiz procediam, mas uma das coisas com as quais eu tenho muito cuidado é com crítica positiva. E falo isso para meus filhos. Críticas elogiosas são um perigo, porque elas podem nos fazer sentir em um Olimpo, e isso não é bom. E acho também que o artista não deve responder às críticas. Devemos sempre examiná-las, mesmo as ruins, porque às vezes procedem, podem ser justas e um alerta para o trabalho que fazemos. Mas a melhor coisa que existe para um artista é outro artista.
Há anos você disse que não se via à altura de Cartola, de Candeia ou de Pixinguinha. Aos 70, se considera ao lado desses homens? Ao lado sim, à altura não (risos). Quando admiramos pessoas, nunca temos essa consciência de que fazemos algo à altura do que elas fazem. Não sei nem falar sobre isso, ainda mais porque não ouço o que faço. Olha só: uma vez achei uma fita de rolo que eu deixava em um gravador sempre pronto para registrar minhas ideias. Havia um samba nessa fita que tinha um andamento mais lento que do samba que acabei gravando anos depois, chamado Nada de Novo. Quando ouvi, pensei: caramba, mas o samba original era tão bonito, por que eu fui mexer naquilo? Isso foi assim comigo a vida toda.
Se me permite, você parece muito cruel com você mesmo. Deve ser por isso que passou a criar menos. Será? Pode ser.
Imagino que o ato de gravar deva ser um sofrimento. Sim, é, mas quando entro naquela coisa, depois que mergulho, aí vai. É difícil. Houve um período em que eu sentia uma inveja danada de alguns colegas meus que passavam o dia todo com um instrumento nas mãos. E eu dizia pra mim: "Mas gente, por que será que eu não consigo ser assim?" Eu sou muito dispersivo. Por outro lado, já aconteceu comigo situações em que criei músicas na hora, ali, no ato. Certa vez fui visitar o Fernando Faro na antiga TV Tupi. Estava voltando para o Rio e passei por lá antes para vê-lo. Quando entrei na sala, ele veio com aquele jeitinho: "Pô Baixo, que legal que você apareceu por aqui, eu estava precisando de você". E eu sem instrumento. E ele: "Pô Baixo, estou com um problema, precisando de uma música para uma novela que vamos fazer aqui". Legal, falei, deixa eu ver o tema pra pensar em casa. E ele: "Não, Baixo, tem que ser agora. Você não vai sair daqui sem fazer esse tema". E então me trancou em uma sala, arrumou um violão e eu acabei fazendo o samba da novela Simplesmente Maria ali mesmo.
Música cansa? Eu não conseguiria fazer só música. Gosto de sair, ler, jogar minha sinuca uma vez por semana, gosto de pegar um martelo e bater sobre algum prego desde pequeno. Eu não conseguiria fica só em cima de um instrumento.
Isso explica o fato de você lançar tão poucos discos? Pois é, eu passei a gravar menos a partir de 1983.
Por quê? Depois que lancei um disco chamado Prisma Luminoso, senti uma série de mudanças. Surgiam novas ideias, novo momento político, nova tecnologia. Então saí com o divulgador de meu novo disco e fui até Belo Horizonte. Lembro que foi nessa época que as rádios deixaram de tocar música brasileira. Achei estranho o comportamento do divulgador e dos radialistas que me recebiam, reclamando que não tinham mais espaço para tomar decisões. Eu não estava entendendo essa mudança.
E você foi ficando de lado. Uma nova geração surgiu, o rock nacional apareceu, e houve uma coisa estranha, sobre a qual não havia controle: nomes totalmente fora da mídia, como Zeca Pagodinho, passaram a encher ginásios aqui no Rio. Isso foi tão forte que tiveram de correr e reconhecer que aquilo existia. Zeca, Almir Guineto, Jovelina Pérola Negra, Fundo de Quintal. Aquilo arrastava multidão.
Era hora de tirar o time de campo? Não, eu fui conquistando meu público lentamente até que aconteceu algo interessante. Em 1997, sem apoio, sem patrocínio, sem nada, resolvi fazer o meu próprio show no Canecão. Fui e banquei. Se desse errado, eu estava ferrado. Fiquei três semanas lotando a casa. Isso foi muito importante para mim, comecei a fazer espetáculos tendo público muito maior.
Sobre a estética do samba, as novas gerações parecem apenas reproduzir um padrão sedimentado... (Interrompendo) Mas eu não vejo mal nenhum em reverenciar os mestres do passado. Isso aconteceu comigo, sempre tive enorme admiração por Pixinguinha e Luiz Gonzaga, os dois grandes nomes da música brasileira do século passado. Não vejo contradição, não vejo como algo negativo o fato de artistas jovens fazerem por amor a reprodução de coisas que já foram feitas. Isso faz parte. Quando uma turma se junta para cantar um samba com cavaquinho, pandeiro e tamborim, é aquele samba mesmo que ela vai cantar. Ninguém está pensando em evolução nesse momento. As pessoas estão felizes, cantando. Já participei muito dessas rodas e posso dizer que quem está lá faz isso por amor.
O samba e o choro, então, não precisam dessa evolução? Nos dois gêneros há inúmeros artistas jovens que trazem ideias novas, experiências, combinam instrumentos. Isso vai acontecer sempre, mas nunca vai ser maior do que Pixinguinha, Ernesto Nazareth e Jacob do Bandolim. Esses nunca vão sumir. Nunca, jamais.
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