25.11.12

Mão de obra desafinada

Escrito por Roger Marzochi em terça-feira, 30/10/2012 ·
Seção: Profissão Entresons · Assuntos: piano; afinação; reforma; mão de obra
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A falta de mão de obra qualificada limita o potencial de crescimento de um serviço que se aproxima muito à arte: a afinação de pianos. Elias Vicente Rodrigues, 56 anos, tem uma oficina para reformar pianos, mas é da afinação que vem a sua fama. Nascido em Curitiba, aprendeu o ofício com o pai e o avô aos oito anos de idade. Na década de 80, veio morar em São Paulo e teve como um dos primeiros clientes o pianista Amilton Godoy, do Zimbo Trio e da escola de música Clam. Amilton gostou do serviço e abriu as portas para Elias, que conseguiu elevar o número de clientes.
Há quatro anos, ele é o responsável pela afinação do piano do Teatro Municipal, afina desde 95 o piano do Tom Brasil, dos principais estúdios de São Paulo e já teve clientes como BB King, o U2 – nos dois shows que a banda irlandesa fez em São Paulo – , Lenny Kravitz , George Benson, Richard Clayderman e Gun N’Roses.
“O vocalista do Guns N’Roses toca piano? Ele dá uma dedas lá, mas tem no palco um outro pianista, junto com o arranjador. Eu afinei os dois pianos. O primeiro serviço para o U2 foi pedido pela produtora que organizou o show. Já o segundo foi pedido pela produção do U2 mesmo. E um dia me ligou um japonês que falava castelhano e estava na França e que fazia a produção do Richard Clayderman. Já no Brasil, afinei o piano de muita gente.”
Em sua oficina, trabalham um marceneiro, um lustrador para pintura de piano e o filho Robson, de 25 anos, que está seguindo o caminho do pai. Por mês, ele reforma quatro pianos; por dia, ele faz cerca de quatro afinações, cada uma custando R$ 250. Estavam para reforma pianos antigos em sua oficina, na Barra Funda, como um Steinway fabricado em Nova York em 1894. A restauração leva de 80 a 100 horas e a margem de lucro é pequena. “Eu pego reforma porque faz parte do trabalho da gente e garante o ganha-pão que é a afinação. No próximo ano, esse cliente que restaurou comigo será um dos quatro clientes que vou afinar”, explica, ressaltando que o piano deve ser afinado a cada seis meses.
“Todo bom afinador vira um bom conhecedor de harmonia, e tem obrigação de conhecer profundamente harmonia. Pode não tocar, porque não pratica técnica.”
E a afinação depende não apenas da técnica para manusear de 210 a 220 cordas que há em um piano, mas também do conhecimento de harmonia. “É comum ouvir uma música no rádio e achar uma coisa qualquer. Esse cara não serviria para praticar isso. Mas se conseguir solfejar com perfeição ele pode trabalhar com isso. Você começa a montar como se fosse o primeiro acorde. Todo bom afinador vira um bom conhecedor de harmonia, e tem obrigação de conhecer profundamente harmonia. Pode não tocar, porque não pratica técnica. Mas aprender afinar é como aprender a falar.”
A afinação começa pela nota lá. Usando um diapasão, espécie de garfo que quando golpeado emite a nota lá, ele aperta ou relaxa o mecanismo que mantém a corda do piano esticada. “Dalí você pega aquela nota e assimila com a outra nota. O diapasão dá a resposta que sobrou, não a batida da tecla do piano. Isso é no violão ou violino, qualquer instrumento de corda. A afinação dura uma hora.”
Os negócios vão bem, mas é possível sentir que Elias gostaria de crescer mais, mas está limitado ao ritmo atual de trabalho. Na oficina, é apenas ele que afina pianos. Se ampliar o número de marceneiros para fazer mais restaurações de piano, não dará conta depois em administrar a afinação dos mesmos com as afinações pedidas no dia a dia. Ele por exemplo não tem controle sobre o prazo que vence a afinação de seus clientes, muitos dos quais até pedem para que ele ligue avisando que é o momento de afinar o instrumento. Com isso, ele também deixa de ganhar. “Eu digo para os clientes que eles têm na cabeça um piano apenas. Eu tenho vários”, responde, revelando uma das falhas de seu atendimento.
“Eu digo para os clientes que eles têm na cabeça um piano apenas. Eu tenho vários”
Mas ele culpa a falta de mão de obra especializada. “Se eu contratar mais gente, caí o nível do meu serviço. Na Europa tem faculdade de técnico em pianos, mas a pessoa sai do curso talvez como quem saiu da faculdade de jornalismo, não sabe nada ainda. E tem que praticar para pegar conhecimento. Só que o meu cliente não quer quem está praticando para pegar conhecimento, quer o meu conhecimento.”
 
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